Caderninho

Flambant Neuf!

Um Mês, 26.

Eu sou uma pessoa que se apega a datas, vide o número 23 que tenho tatuado. O que é meio contraditório, pois eu vivo esquecendo os aniversários das pessoas. O que eu quero dizer é que me apego a certas datas e gosto de dar significado a elas, e isso pode ser bom ou ruim. Mas acho que independente de ser apegado ou não a datas, a essa altura todos os envolvidos atentaram para o fato de que está fazendo um mês do falecimento do André.

Eu pensei em escrever um conto, uma crônica ou uma coisa dessas que eu escrevo, pra desafogar um pouco. Mas dessa vez não dá. Não pretendo escrever um texto bonito, poético, dramático ou tocante, embora no fim das contas possa parecer qualquer uma dessas coisas; eu só quero escrever algo sincero. Porque eu acho que preciso, e que as pessoas do meu convívio mais próximo também precisam.

Eu queria compartilhar isso com as pessoas mais próximas e ao mesmo tempo deixar aberto – porque às vezes pessoas que nem são muito chegadas se preocupam sinceramente com você e gostariam de saber como você está passando. Visto que o Facebook é extremamente exposto, optei por escrever aqui no meu quase abandonado blog e enviar o link para as pessoas que eu acho que gostariam de ler. Fiquem à vontade pra compartilhar com alguém que vocês achem que também gostaria de ler, e também não se sintam obrigados a comentar nada, mas fiquem à vontade. Essa é uma frase importante, “fiquem à vontade”; eu estou fazendo isso porque preciso falar sobre e porque quero que vocês saibam como lidar comigo.

Às vezes eu sinto que algumas pessoas querem me perguntar como eu estou com relação a isso tudo, mas ficam com receio de me incomodar, de eu não querer falar sobre. Obrigada pelo tato, tá certo. Mas é normal ter curiosidade, e se não perguntar, provavelmente eu também não vou falar, embora tenha muita necessidade de fazê-lo. Falar é bom, faz bem, alivia… Eu bem sei disso, todo mundo sabe que eu falo pra caramba. Então, se tiver intimidade para tal, não se acanhe de me perguntar alguma coisa. O máximo que pode acontecer é eu dizer que não quero falar sobre, e só. Prometo que ninguém vai sair ferido.

Um dos motivos pelo qual não tenho conversado muito sobre isso é porque eu falei tanto, tanto, tanto sobre isso na primeira semana que tive um pouco de receio de ter saturado algumas pessoas. É besteira, eu sei. Eu sei que vocês vão me ouvir o quanto eu precisar, mas me incomoda um pouco me sentir repetitiva, ou conversando em círculos. Mas continua sendo besteira minha, por isso que eu disse que pode perguntar. E o motivo principal é que, quando estou em companhia, acabo falando sobre outras coisas. Várias vezes já busquei companhia pra falar sobre isso, mas quando encontro com a pessoa me distraio conversando aleatoriedades e acabo não falando. É bom e é ruim.

Eu gosto de me distrair, me faz bem, também. É por isso que continuo saindo, encontrando meus amigos e fazendo minhas atividades do dia a dia. Isso não quer dizer que seja fácil. Deixar de fazer isso também não ajuda. Passei a primeira semana a passos de formiga e voltar à rotina foi muito mais difícil do que eu imaginava. Só levantar da cama, tomar café e me aprontar pra sair às vezes exige um esforço bem maior do que o normal, mas eu sei que é importante fazer minhas coisas. A minha cabeça parece sempre muito cheia, até quando eu não estou fazendo nada importante. Minha memória e concentração às vezes também ficam muito ruins, mas creio que não a ponto de prejudicar meu trabalho; meu rendimento está abaixo do que o que eu estou acostumada, mas consigo manter meus prazos no escritório e fazer os meus desenhos.

Tive receio de voltar ao grupo de ópera – no qual entrei recentemente – por achar que não ia me sentir à vontade com pessoas que eu conheço há tão pouco tempo. O efeito foi justamente o contrário. Os ensaios exigem bastante de mim e eu sempre volto pra casa muito cansada, pois saio direto do trabalho, mas é gratificante. Eu me ocupo, sinto que estou aprendendo e evoluindo e estou convivendo com pessoas maravilhosas. O Dell´Arte é bem cheio de uma coisa que eu me identifico, sinto falta no meu dia-a-dia e sempre me fez bem, desde os tempos de CEFET: diversidade.

O ânimo de voltar pras atividades físicas ainda me falta. Abandonei o boxe e na semana retrasada fui ao treino do hop uma vez e não me senti bem… Fui hoje de novo e foi tão difícil quanto, mas só porque com o exercício sinto as tensões saindo do corpo e parece que sinto também muito do peso psicológico querendo sair. É estranho sentir vontade de chorar no meio da aula, parece uma TPM eterna. Mas faz parte dos meus passos, sejam eles de formiga ou de girafa, o que vale é continuar andando. A banda vai voltar a ensaiar esse fim de semana, não sei como vai ser. Acho que vai ser bom, os meninos são uns heróis.

No mais, vai tudo indo como deve ir… Eu como, eu durmo – às vezes não muito bem, às vezes durmo demais e parece que não dormi nada. Ainda tenho muito a fazer e resolver, mas cada coisa no seu tempo. Alguns dias são melhores do que outros. Alguns dias são piores do que outros. Acho que, de imediato, muita gente teve medo de eu ficar doida, inclusive eu. Mas eu estou conseguindo manter as coisas no nível mais racional possível. Só que, embora ter consciência de como as coisas são e saber que é um processo lento e difícil ajude muito, isso não quer dizer que tudo vai passar como mágica. Em resumo, o que eu quero dizer é que, sim, eu estou bem. Na medida do possível. E não é em um tom de “não se preocupem, está tudo bem”. Muito pelo contrário, é mais um: “sim, se preocupem, por favor. Obrigada por se preocuparem e cuidarem de mim”. Porque se eu posso dizer que estou bem, é por causa de vocês. Espero que todo mundo esteja ficando bem, também.

No Fun at All

Funeral de filme é uma coisa bonita, né? Tem aquela grama verdinha, um espaço enorme, umas flores lindas e o pessoal todo organizadinho ao redor do túmulo, chorando em silêncio. Geralmente chove, pra ficar mais melancólico. Quando chove os guarda-chuvas são todos iguais, pretos, arrumados.

Não tem sombrinhas de todas as cores, com uma haste torta aqui e outra ali. Não tem gente por toda parte porque os túmulos ficam quase uns por cima dos outros. Não tem criança rindo e correndo porque não tá entendendo nada. Não tem um cachorro manco se abrigando da chuva em frente a capela.

Não tem filha fechando o caixão da mãe com as próprias mãos. Não tem parente mexendo nos ossos de familiares há muito mortos, ajudando o coveiro com a exumação. Não tem coveiro com roupa de gari e bota de borracha mergulhado na lama da cova. Não tem tampa de mármore quebrada, crucifixo caído, flor de plástico, flanelinha pedindo um trocado na porta do cemitério.

E funeral de filme não dói.

“Plutonian” o Quê?

Plutonian Children Deserve to Die. Era esse o título. A obra? Abstratíssima. Óleo sobre uma tela de três metros de largura por trinta e oito vírgula sete centímetros de altura. Com um pouco de giz pastel seco. E nanquim. Um tanto de papel higiênico e cola, talvez. O jovem jornalista estava agora com o lápis suspenso no ar após escrever freneticamente durante quinze minutos inteiros. Sequer percebeu os passos secos e bem ritmados que ecoavam cada vez mais alto às suas costas.

O homem parou e ficou lendo as anotações por cima do ombro do moço. Apontou:

– Acho que você deveria escrever de outra maneira.

O rapazinho revirou os olhos com impaciência, por trás dos óculos quadrados de aros largos.

– Mesmo?

– Olha, “O autor quis expressar…” Como você sabe? E não acha essa crítica aqui muito agressiva? – apontou para o bloco de papel – Soa muito prepotente e… Perdão. Estou me intrometendo demais?

– Nada. Imagina…

O tom de ironia era particularmente desagradável.

– Se é esse o caso, permita que eu me apresente. – estendeu a mão – Antônio Santos, artista plástico. Posso ajudá-lo?

Um tanto abobalhado, o jornalista olhou da mão do homem para o canto inferior direito da tela. Então se apressou em retribuir o cumprimento com um aperto de mão caloroso:

– Francis Chaves, jornalista. Concederia-me uma entrevista? Apenas uma pergunta?

– Claro.

– O que o autor quis expressar?

– Nada.

– Como assim, nada?

– Essa tela veio com um defeito e como não ia pintá-la, usei-a para limpar as mãos e os pincéis e descartar todo o resto do meu material de trabalho enquanto produzia minhas outras obras. Então tive a idéia de trazê-la até aqui e ver as interpretações que as pessoas dão. Escolhi um título ao acaso, que parecesse chocante e confuso. Talvez pra refletir a ideia de abstrato que as pessoas têm de modo geral. É engraçado. Divertido até. Somos tratados como loucos.
O rapaz ficou sem graça e o artista prosseguiu:

– Espero não estar ofendendo, mas você tem ares de quem sabe demais das coisas. E também tem ares de que são só ares, mesmo. Tem toda a liberdade de interpretar minhas obras como quiser, mas ponha seu nome no que você faz. Tenha orgulho dele. E preste atenção: você fez uma crítica ferrenha à minha obra. Contudo, essa crítica violentou as suas próprias idéias sobre a tela, não as minhas.

Por um segundo, Francis não pareceu ofendido, mas sim, conformado. Antônio foi se retirando devagar e dizendo:

– Estude, rapaz. Pesquise. Muita coisa depende de um jornalismo inteligente. O povo toma o que você diz como verdade. Não estrague a credibilidade que lhe é dada pelo cargo que você ocupa e… Francis?

– Sim?

– Aposto que o pessoal da sua casa ainda te chama de Chico.

Sorriu, virou sobre os calcanhares e saiu da galeria.

26.09.07

M’Olhar

Tinha um hálito quente de deserto e os olhos abertos no escuro eram como dois sóis. A respiração dificultada dava aqueles ares de velho oeste, vento de barulho áspero, cortante, e todo aquele calor no recinto. Uma aridez só.

Tinha também vontade de tirar todos os espinhos da língua afiada de cacto e usá-los para pregar os olhos cansados e cansados, que não cansavam de repetir velhos filmes de faroeste. Velho oeste.

Mas é que é tão simples transformar uma floresta tropical em deserto, tão rápido transformar sua noite fria em meio-dia e, depois de tudo isso, tão difícil conseguir dormir debaixo de tanto sol.

21.10.08

Downtown

Ela não era dali, não conhecia ninguém e não se importava. Saiu de jeans e camiseta, do jeito que estava; não se importava. Muita gente passava, o frio assolava e ela não se importava.

Até que seus olhos se abriram e ela levou um tapa na cara. Um tapa tão forte, mas tão forte que seu coração desceu para os joelhos e ficou batendo lá, descompassado, desequilibrando tudo.

Depois disso aquele coração passou semanas passeando dentro do corpo, perdido. Martelando nos ouvidos, se debatendo no oco da cabeça, se contraindo em mãos que abriam e fechavam.

E naquele dia em que o coração bateu na garganta e ficou lá preso, indeciso, foi que ela regurgitou e mastigou com força. Ao invés de engolir em seco e encarar uma má digestão, resolveu colocar tudo pra fora.

Mas agora tinha que lidar com aquele coração dilacerado se contorcendo em tiras no chão sem carpete, sem respostas, sem saber se importava ou não.

05.02.13

Ecoar

Eloá era quietinha e carregava no semblante pálido umas olheiras bem grandes.

Era uma criança estranha, dessas que as outras crianças fazem questão de manter distância e jogam aqueles olhares furtivos. Simples e (in) justamente porque são estranhas. E ficava pelos cantos, quietinha, ouvindo, observando, sentindo. Se divertindo sozinha, aqueles cabelos escorridos e meio cinzentos, ondulando.

Observava as paredes de perto, e as formigas e rachaduras eram vacas à beira de abismos. O prego na parede poderia ser uma pessoa na neve. As pequenas coisas, todas as pequenas coisas. Poderia transformar uma flor num vestido de princesa e sabia perceber que o seu próprio nome tinha gosto de suco de abacaxi. Todas as pequenas sutilezas, tão suaves. Tão pequena.

De tanto observar, não entendia várias coisas, principalmente as pessoas. Não entendia os gritos, as brigas, a acidez das ironias, de tão pacata que era. Mas vejam bem, não confundam com lentidão. Eloá entendia bem tudo o que se passava, era bastante astuta. Só não conseguia era compreender o porquê de ser daquele jeito. Daquele modo tão áspero e tão desnecessário.

O tempo passava com Eloá pelos cantos, aprendendo a aceitar tudo aquilo exatamente como era. Tudo mesmo. E se a perguntassem o que tanto fazia ali, naquele canto de parede, a resposta seria sempre a mesma:

– Estou me digerindo.

02.07.08

Terá Pia

– Aí eu disse a ele tudo o que eu tava pensando, tudo mesmo…

Conversava com aquela voz pastosa, cheia de espuma de pasta de dente:

– E fui falando, falando, até que eu mesma fui resolvendo meus problemas, chegando a algumas conclusões e quando tava terminando a sessão sabe o que ele falou? Sabe? “Hmrrum”. Ele disse “Hmrrum”. Não ria, não! Eu achei que era mentira de filme, mas não, ele disse, mesmo. Fingiu que tava se preocupando com meus problemas e encontrando as soluções… Mas eu sempre soube que não precisava de médico, sempre soube. Nunca fui doida, eu mesma, não! Sabe o que eu fiz, sabe? Bati a porta do banheiro na cara dele e nunca mais olhei praquele espelho!

Cuspiu na pia, lavou a boca e colocou a escova de dente no copinho. Apagou a luz, saiu e fechou a porta, deixando para trás apenas o banheiro vazio.

17.06.09