Caderninho
Flambant Neuf!Arquivo de ele
O Armário
Quando ele entrou no quarto, as roupas já estavam quase todas jogadas no chão. Por um momento, pensou que ela estivesse arrumando as malas dele e fosse mandá-lo embora e a inexistência de motivos não importava. Pior, ela poderia estar arrumando as malas para ir embora.
- Meu bem?
Nenhuma resposta. Ela continuava a atirar roupas e mais roupas no chão e mal tinha onde pisar. Ele também já não sabia mais onde pisar. E perguntou com cuidado:
- O que você tá fazendo?
- Nada.
Ele olhou ao redor, perplexo. Como é que jogar tudo para cima poderia ser nada?
- Nada?
- É, nada.
-… Nada.
- Só arrumando o armário.
- Ah.
Ele continuou a observar os movimentos vigorosos dela; quase acompanhavam o ritmo da música intensa que só agora ele havia notado. Depois do arrastar de alguns segundos, ele atreveu-se:
- Mas…
- O quê?
- Ela falou tão bruscamente, parecendo assustada, que toda a cena parou. Só havia os batimentos cardíacos e uma camiseta parada no ar.
- O quê? – Repetiu ela.
- Nada.
- Eu só tenho que jogar umas coisas fora e…
- O quê?
- Nada.
- O que você disse?
- Não disse nada.
- Disse sim, eu ouvi.
- Se ouviu, por que pergunta?
- Eu ouvi, mas não entendi.
- Ouviu como, se eu não disse nada?
Ela suspirou profundo, jogou uma calça comprida por sobre o ombro e resmungou novamente:
- Eu só tenho que arrumar umas coisas, jogar fora outras…
- O que foi?!
- EU SÓ TENHO QUE JOGAR UMAS COISAS FORA!
E ela caiu de joelhos no meio da pilha de roupas, cobrindo com as mãos os soluços molhados. E ele ficou ali parado, sem saber o que fazer, com uma saia debaixo do sapato esquerdo e sem entender absolutamente nada.
31.10.07
