Caderninho

Flambant Neuf!

Arquivo de ele

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Ela ficou com a testa encostada no balcão frio, porque fazia parecer que os pensamentos estavam indo mais devagar, embora tremessem um pouco; de frio? Pensamento tem frio? Talvez fosse ela mesma, a mão direita fechada firmemente em torno de um copo praticamente cheio, a mão esquerda solta na nuca, tremendo que nem pensamento, e só ela de mulher no bar. Era cedo.

Então entrou o homem estranho, que ela nunca sequer havia visto na vida e que sentou ao lado dela. Ela levantou um pouco o rosto, olhou para ele de rabo de olho por cima das próprias olheiras, a cara amassada, e tornou a baixar a cabeça. Ele disse “oi”, ela respondeu com um resmungo, e ele não se deu por satisfeito:

- Algum problema, senhorita?

- Todo mundo tem um problema. Pelo menos um.

- E não quer me dizer qual é o seu?

- Querer eu não quero, não. Mas dá pra ver que eu estou sozinha em um bar no meio da semana, e não são nem 5:30 da tarde.

- Mas isso é fácil de resolver. Você já não tá mais sozinha, só falta a gente sair daqui.

- Eu estou sozinha, sim, obrigada. E isso é o de menos.

- O que mais, então?

- Eu tenho um problema sério de… Dependência.

Ele olhou o copo na mão dela, o líquido cristalino cintilando, ritmado e sugestivo. Ele sussurrou um “ah…”, quando de repente ela sorriu em direção à rua ao ouvir uma buzina de carro e apareceu o sorriso de um homem estranho ao homem estranho. Ela correu e entrou no carro com um salto, que partiu.

Ele, cauteloso, cheirou o copo ficou no balcão, quase cheio. Era água.

O Armário

Quando ele entrou no quarto, as roupas já estavam quase todas jogadas no chão. Por um momento, pensou que ela estivesse arrumando as malas dele e fosse mandá-lo embora e a inexistência de motivos não importava. Pior, ela poderia estar arrumando as malas para ir embora.

- Meu bem?

Nenhuma resposta. Ela continuava a atirar roupas e mais roupas no chão e mal tinha onde pisar. Ele também já não sabia mais onde pisar. E perguntou com cuidado:

- O que você tá fazendo?

- Nada.

Ele olhou ao redor, perplexo. Como é que jogar tudo para cima poderia ser nada?

- Nada?

- É, nada.

-… Nada.

- Só arrumando o armário.

- Ah.

Ele continuou a observar os movimentos vigorosos dela; quase acompanhavam o ritmo da música intensa que só agora ele havia notado. Depois do arrastar de alguns segundos, ele atreveu-se:

- Mas…

- O quê?

- Ela falou tão bruscamente, parecendo assustada, que toda a cena parou. Só havia os batimentos cardíacos e uma camiseta parada no ar.

- O quê? – Repetiu ela.

- Nada.

- Eu só tenho que jogar umas coisas fora e…

- O quê?

- Nada.

- O que você disse?

- Não disse nada.

- Disse sim, eu ouvi.

- Se ouviu, por que pergunta?

- Eu ouvi, mas não entendi.

- Ouviu como, se eu não disse nada?

Ela suspirou profundo, jogou uma calça comprida por sobre o ombro e resmungou novamente:

- Eu só tenho que arrumar umas coisas, jogar fora outras…

- O que foi?!

- EU SÓ TENHO QUE JOGAR UMAS COISAS FORA!

E ela caiu de joelhos no meio da pilha de roupas, cobrindo com as mãos os soluços molhados. E ele ficou ali parado, sem saber o que fazer, com uma saia debaixo do sapato esquerdo e sem entender absolutamente nada.

31.10.07

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