Caderninho

Flambant Neuf!

Arquivo de crianças

De Pano

Zinha chegou pisando tão duro que parecia prensar cada vez mais o barro já batido do chão do quintal. A mãe varria, paciente, sabendo que a menina de cara amarrada só esperava que alguém a perguntasse o que havia acontecido. A poeira subia insistente enquanto as folhas secas eram arrastadas para um canto da cerca farpada. Zinha, com mais farpas que o arame, perdeu os estribilhos e disparou, sem esperar perguntas:

- O Tião pegô minha buneca.

- Apois pegue de volta que depois brigo com ele.

- Num podo.

- É “posso”. E num pode por causa de quê?

- Ele jogô ela no poço e a sinhora disse pra nóis num entrar lá.

- Mais que minino impussível!

Quando uma mãe chama o filho pelo nome é porque alguma encrenca vem de lá. O moleque estremeceu debaixo das folhas do pé de acerola ao ouvir o brado “Sebastião” ecoar pelos cômodos da casa. Aprontou uma expressão de inocência e correu a atender o chamado de Dona Eulália.

- Sim, sinhora?

- Cadê a buneca de Zinha?

- Sei dizer não, sinhora.

- Mais mintir cê sabe, né, seu caba safado? Eu já sei que aquela porquêra tá no fundo do poço!

Zinha abriu o berreiro:

- Num é porquêra!

Dona Eulália agarrou o menino pelo colarinho e o levou até a beira do poço, com Zinha agarrada na barra de sua saia. O poço, que não era muito fundo, estava com pouca água devido à falta de chuva, e uma escada de madeira despontava na abertura circular.

- Agora desce e vai buscar a buneca.

- Mais a sinhora disse que é pirigoso.

- Mais eu tô aqui pra olhar.

- Mais essa escada tá capenga.

- Deixe de lorota que eu sei que cê desce aí pra traquinar quando eu num tô olhando!

O menino desceu, brincou um pouco na água e logo que encontrou a boneca subiu sem dificuldade sob o sorriso lacrimoso de Zinha. Quando pulou a mureta cimentada, Tonho, o irmão mais velho, veio e pôs um doce na mão de Tião. A mãe, desconfiada, perguntou:

- Que é que cê deu pra ele?

- Uma mariola.

- Por conta de quê?

- É que eu apostei um doce como ele num conseguia brincar no poço bem debaixo das vista da sinhora.

Tonho saiu correndo às gargalhadas e Tião aprendeu que surra de boneca de pano molhada é pior do que de chinelo.

05.05.06

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