Caderninho

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Ela ficou com a testa encostada no balcão frio, porque fazia parecer que os pensamentos estavam indo mais devagar, embora tremessem um pouco; de frio? Pensamento tem frio? Talvez fosse ela mesma, a mão direita fechada firmemente em torno de um copo praticamente cheio, a mão esquerda solta na nuca, tremendo que nem pensamento, e só ela de mulher no bar. Era cedo.

Então entrou o homem estranho, que ela nunca sequer havia visto na vida e que sentou ao lado dela. Ela levantou um pouco o rosto, olhou para ele de rabo de olho por cima das próprias olheiras, a cara amassada, e tornou a baixar a cabeça. Ele disse “oi”, ela respondeu com um resmungo, e ele não se deu por satisfeito:

- Algum problema, senhorita?

- Todo mundo tem um problema. Pelo menos um.

- E não quer me dizer qual é o seu?

- Querer eu não quero, não. Mas dá pra ver que eu estou sozinha em um bar no meio da semana, e não são nem 5:30 da tarde.

- Mas isso é fácil de resolver. Você já não tá mais sozinha, só falta a gente sair daqui.

- Eu estou sozinha, sim, obrigada. E isso é o de menos.

- O que mais, então?

- Eu tenho um problema sério de… Dependência.

Ele olhou o copo na mão dela, o líquido cristalino cintilando, ritmado e sugestivo. Ele sussurrou um “ah…”, quando de repente ela sorriu em direção à rua ao ouvir uma buzina de carro e apareceu o sorriso de um homem estranho ao homem estranho. Ela correu e entrou no carro com um salto, que partiu.

Ele, cauteloso, cheirou o copo ficou no balcão, quase cheio. Era água.

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