Caderninho
Flambant Neuf!Arquivo de bar
Anônimos
25.07.10 às 20:09 · Arquivado em Contos and tagged: bar, ela, ele
Ela ficou com a testa encostada no balcão frio, porque fazia parecer que os pensamentos estavam indo mais devagar, embora tremessem um pouco; de frio? Pensamento tem frio? Talvez fosse ela mesma, a mão direita fechada firmemente em torno de um copo praticamente cheio, a mão esquerda solta na nuca, tremendo que nem pensamento, e só ela de mulher no bar. Era cedo.
Então entrou o homem estranho, que ela nunca sequer havia visto na vida e que sentou ao lado dela. Ela levantou um pouco o rosto, olhou para ele de rabo de olho por cima das próprias olheiras, a cara amassada, e tornou a baixar a cabeça. Ele disse “oi”, ela respondeu com um resmungo, e ele não se deu por satisfeito:
- Algum problema, senhorita?
- Todo mundo tem um problema. Pelo menos um.
- E não quer me dizer qual é o seu?
- Querer eu não quero, não. Mas dá pra ver que eu estou sozinha em um bar no meio da semana, e não são nem 5:30 da tarde.
- Mas isso é fácil de resolver. Você já não tá mais sozinha, só falta a gente sair daqui.
- Eu estou sozinha, sim, obrigada. E isso é o de menos.
- O que mais, então?
- Eu tenho um problema sério de… Dependência.
Ele olhou o copo na mão dela, o líquido cristalino cintilando, ritmado e sugestivo. Ele sussurrou um “ah…”, quando de repente ela sorriu em direção à rua ao ouvir uma buzina de carro e apareceu o sorriso de um homem estranho ao homem estranho. Ela correu e entrou no carro com um salto, que partiu.
Ele, cauteloso, cheirou o copo ficou no balcão, quase cheio. Era água.
