O alicate trabalhava devagar e preguiçoso, enquanto passava aquela banda na TV. As pessoas se admiravam por ela estar sempre com as unhas bem feitas, de cores diferentes, caprichosas. Mas é que esses pequenos enfeites do lado de fora ajudam a esquecer do que tem dentro, e muita gente não sabe disso. Além do mais, ela gostava de ter sempre as mãos limpas. Deixou a banda tocar, sem mudar o canal, enquanto o alicate picotava aquelas coisas de dentro. Não gostava mais daquelas músicas, mesmo sabendo que eram boas. Traziam lembranças boas de uma época que não voltaria mais, e lembranças ruins, das quais não deveria lembrar.
Perguntava a si tantas perguntas que não deveria nem precisava fazer, se movendo com lentidão – que não é a mesma coisa que cuidado – e viu o alicate se abrir, ameaçador. E viu as lâminas opostas, afiadas só o suficiente, beliscando a carne que ficou branca, branca. E o sangue fluiu, tudo em câmera lenta. Ela só ficou olhando, limpou o corte e continuou trabalhando nas unhas da outra mão, como se não tivesse percebido o que aconteceu. Quando voltou à mão machucada viu que havia mais sangue do que o esperado. Comprimiu o corte até estancar e ficou pensando por que não estava incomodando tanto… Concluiu que era porque aquilo não era dor, dor era outra coisa. Ela conseguia controlar aquilo pensando que era uma besteira que já já iria passar, mas a dor de verdade, não.
Essa ela não podia controlar, mas podia tentar esquecer. Mas como é que se esquece de si mesmo? Pintou as unhas de vermelho, para combinar.
27.08.11
