Caderninho

Flambant Neuf!

Éter

Às vezes ela pensava algumas coisas que a faziam se manter bastante consigo mesma, uns pensamentos bem baixos e quietos, que pressionavam os tímpanos. Baixos como um tapete ralo e sujo, colocado indevidamente no palácio da memória; um tapete que não a pertencia.

Ou mais ainda como uma grama muito, muito bem aparada. Aquela superfície vaga e verde, com manchas amareladas de calor e sol, tão simples na superfície, mas que esconde tanta terra, água, raízes, insetos, vida e outras muitas curiosidades as quais só sabemos que estão lá por ouvir dizer, mas que, no fundo, as desconhecemos.

Ela deveria tentar manter-se sempre à superfície e, quem sabe, no máximo aguar a grama para vê-la orvalhar-se. No máximo. Cavar poderia ser muito perigoso.

Às vezes ela, Cecília, era de uma melancolia suave, como quando via café descendo pelo ralo da pia e, vez por outra rabiscava esses trechos de pensamento baixo em um pedaço de papel. Não satisfeita com palavras tão avulsas, acabava tentando transformar seu gramado em um jardim florido.

Tudo o que conseguia era mais uma personagem tão avulsa quanto as palavras, e que não apareceria novamente em sua cabeça, mas que ao mesmo tempo apareceria sempre. Porque de diferente só tinham os nomes, mas de resto sempre tinham um pouco de Cecília, e eram todas uma só.

E só. Será que ela nunca pensou que escrever sobre coisas assim, simplesmente coisas, era como enfiar os dedos na grama para revolver um pouco a terra? E que cavar poderia ser muito perigoso?
20.12.08

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