Caderninho
Flambant Neuf!Arquivo de agosto, 2011
Verniz
O alicate trabalhava devagar e preguiçoso, enquanto passava aquela banda na TV. As pessoas se admiravam por ela estar sempre com as unhas bem feitas, de cores diferentes, caprichosas. Mas é que esses pequenos enfeites do lado de fora ajudam a esquecer do que tem dentro, e muita gente não sabe disso. Além do mais, ela gostava de ter sempre as mãos limpas. Deixou a banda tocar, sem mudar o canal, enquanto o alicate picotava aquelas coisas de dentro. Não gostava mais daquelas músicas, mesmo sabendo que eram boas. Traziam lembranças boas de uma época que não voltaria mais, e lembranças ruins, das quais não deveria lembrar.
Perguntava a si tantas perguntas que não deveria nem precisava fazer, se movendo com lentidão – que não é a mesma coisa que cuidado – e viu o alicate se abrir, ameaçador. E viu as lâminas opostas, afiadas só o suficiente, beliscando a carne que ficou branca, branca. E o sangue fluiu, tudo em câmera lenta. Ela só ficou olhando, limpou o corte e continuou trabalhando nas unhas da outra mão, como se não tivesse percebido o que aconteceu. Quando voltou à mão machucada viu que havia mais sangue do que o esperado. Comprimiu o corte até estancar e ficou pensando por que não estava incomodando tanto… Concluiu que era porque aquilo não era dor, dor era outra coisa. Ela conseguia controlar aquilo pensando que era uma besteira que já já iria passar, mas a dor de verdade, não.
Essa ela não podia controlar, mas podia tentar esquecer. Mas como é que se esquece de si mesmo? Pintou as unhas de vermelho, para combinar.
27.08.11
Inocência
“Quando eu tinha três anos” eu provavelmente começaria uma narrativa exatamente dessa maneira, mesmo que tivesse quatro anos recém completados. E nem mesmo hoje em dia pode-se tocar no assunto do meu modo de narrar os fatos como se fossem passados distantes sem que meu irmão faça graça. A diferença é que não me aborrece mais, então vamos adiante.
Quando eu tinha três anos, ainda chupava chupeta. Meus pais insistiam bastante para que eu parasse, mas eu era (?) bem birrenta. Chata mesmo. Gostava daquilo e não via motivo que a tirassem de mim. Talvez tivessem motivos, mas devem ter entrado por um ouvido e saído por outro porque não me lembro. Ou simplesmente porque faz muito tempo.
Ia fazer quatro anos e teria uma festa de bruxa. Uma mesa enfeitada com sapos, lagartos, baratas, aranhas, caldeirões e uma arvorezinha seca com jujubas espetadas. E um teatro de bonecos. O máximo. Eu tinha até um chapéu pontudo e uma colher de pau.
“Quatro anos? Mas você já está tão grande… Não tá na hora de se livrar da chupeta?” Mas eu não conseguia. Poderia então fazer um feitiço, para ela desaparecer.
De quem foi aquela idéia? Também não lembro. Mas sei que criança adora uma novidade, e lá fui eu juntar a maldita aos lagartos de plástico dentro do caldeirão.
Essa é uma daquelas histórias que você mais conhece pelos outros contarem do que realmente lembra os acontecimentos. Alguém me distraiu, e quando dei por mim, ela havia desaparecido.
Até hoje não sei onde ela foi parar, e se eu pergunto quem pegou, me dizem que a mágica funcionou de verdade.
04.05.06
Éter
Às vezes ela pensava algumas coisas que a faziam se manter bastante consigo mesma, uns pensamentos bem baixos e quietos, que pressionavam os tímpanos. Baixos como um tapete ralo e sujo, colocado indevidamente no palácio da memória; um tapete que não a pertencia.
Ou mais ainda como uma grama muito, muito bem aparada. Aquela superfície vaga e verde, com manchas amareladas de calor e sol, tão simples na superfície, mas que esconde tanta terra, água, raízes, insetos, vida e outras muitas curiosidades as quais só sabemos que estão lá por ouvir dizer, mas que, no fundo, as desconhecemos.
Ela deveria tentar manter-se sempre à superfície e, quem sabe, no máximo aguar a grama para vê-la orvalhar-se. No máximo. Cavar poderia ser muito perigoso.
Às vezes ela, Cecília, era de uma melancolia suave, como quando via café descendo pelo ralo da pia e, vez por outra rabiscava esses trechos de pensamento baixo em um pedaço de papel. Não satisfeita com palavras tão avulsas, acabava tentando transformar seu gramado em um jardim florido.
Tudo o que conseguia era mais uma personagem tão avulsa quanto as palavras, e que não apareceria novamente em sua cabeça, mas que ao mesmo tempo apareceria sempre. Porque de diferente só tinham os nomes, mas de resto sempre tinham um pouco de Cecília, e eram todas uma só.
E só. Será que ela nunca pensou que escrever sobre coisas assim, simplesmente coisas, era como enfiar os dedos na grama para revolver um pouco a terra? E que cavar poderia ser muito perigoso?
20.12.08
Tantos Títulos
Escrever dói. Eu preciso, muitas vezes eu preciso. Mas tantas outras eu acho tudo tão… Exagerado. Excesso de romance nas épocas felizes, excesso de drama em períodos tristes, excesso de qualquer coisa em qualquer situação, porque sempre há um defeito a ser posto. E uma vez ou outra talvez eu até deixe de escrever, mesmo precisando, porque acho que vai ficar qualquer coisa de excessivo. Mas eu sei que não devo.
Sei que não devo, porque pra escrever é preciso ser intensa. Senão ninguém lê. Nem eu, até porque não escrevo, não extravaso. Escrever dói, porque significa que algo deve ser posto para fora. Há cantos para serem aparados, vazamentos a serem selados, partos a serem feitos, sacrifícios e esforços. Senão continua doendo. Não que seja (sempre) ruim, mas até os sentimentos bons doem, quando em excesso. É preciso escrever, é preciso extravasar, é preciso doer e é preciso repetir algumas palavras e idéias, às vezes.
Para que não doam mais.
Para que não doam. Não doam. Doam. Talvez a conjugação confusa não seja por acaso. Talvez escrever doa justamente porque consiste em se dar e doar seus excessos ao papel. Se mostrar, assim, tão intensamente, dói. A exposição dói porque é se doar. Escrever dói. Mas muitas vezes eu preciso. Preciso repetir algumas palavras e idéias, às vezes. Qualquer coisa de excessivo.
20.08.08
