Para ler ouvindo: Les Petits Papiers – Serge Gainsbourg
Às vezes eu nem gosto de ter começado a escrever, um dia. Porque o único motivo que me faz achar que eu possa ser uma escritora é essa necessidade de escrever, só. Eu não escrevo porque você tá lendo, porque ninguém tá lendo, ou porque é chique. Porque é elegante e bonito ser intelectual, e intelectuais escrevem. Quase tenho inveja das pessoas que acham que empilhar letras que nem ao menos se enquadram nas regras ortográficas, sejam as velhas ou as novas, seja escrever; que juram de pé junto que escrever um meio roteiro de coméria romântica da sessão da tarde, pulando linhas e parágrafos para quebrar as frases aleatoriamente, seja fazer poesia.
Quase tenho inveja porque, se fosse o caso, seria fácil de me livrar. Bastava fechar o caderno, guardar a caneta, desligar o computador, que seja, e simplesmente não o fazer mais. Mas não é assim que a coisa funciona, ou não funciona, pelo menos para mim. Faz tempo que não escrevo, que não desenho, que não risco as paredes e minha cabeça começa a reclamar. E é justo nos dias em que venho guardando, ou não quero, ou não posso, ou não acho que devo, ou não tenho o que falar é que ela vem me cobrar, com todos os seus juros. Artista tira férias?

Bom, sei que eu escrevo porque gosto de compartilhar idéias e coisas bacanas que encontro por aí, e esse é o melhor meio de esbarrar com outras pessoas interessantes e que, de alguma maneira, dividem comigo o gosto por seriados esquecidos, poetas bissextos, bandas islandesas ou receitas de petit gateau. Além disso, escrever é um ato catártico; desanuvia as angústias, faz cócegas nos pensamentos e obriga os neurônios a praticarem polichinelos de vez em quando. Tá bom demais, não?