Caderninho
Flambant Neuf!Pelo Ralo
ou: “Aquele Dia Em Que Eu Não Consegui Fazer Várias Coisas, Inclusive Escrever”
Eu sei quando um sentimento é complicado demais pra mim, porque tudo sobre ele fica perfeitamente escrito dentro da minha cabeça como um conto, mas quando passo pro papel não é a mesma coisa; eu uso exatamente as mesmas palavras nas quais estou pensando e elas não dizem o que eu achava que diriam.
O papel não mente, mas também não sente. O resultado é insuficiente, não vale a pena, porque eu só acho que sei o que eu queria dizer, e talvez eu não saiba. Pelo menos é bom saber que hoje em dia falar de amor chega a ser até natural. De outras coisas é que eu ainda não sei, e talvez não precise saber.
CansAço
Eu estou cansada. Entenda, toda cansada. Minha cabeça, meu corpo, até as coisas que eu faço estão cansadas. Estas palavras estão cansadas. Até meus fios de cabelo, juro, da raiz às pontas, estão cansados.
Estou especialmente cansada de me cansar com aquilo que não merece desprendimento de energia de minha parte. São justamente essas as coisas que me causam estafa, e saber disso tudo acaba me cansando mais ainda. Se é que é possível.
Tentar deixar de se cansar com “coisas” é como andar muito tempo de salto alto. Basta calçá-los e fingir que sou grande, fingir que não me importo, que não me canso e que não me canso dos prédios compridos, das escadas longas e das pessoas altas.
Mas andar de salto alto também cansa e, espantem-se os que não sabem: quem tem costume de andar sobre saltos por muito tempo, depois não sabe mais pôr os pés no chão. Os tendões doem e a coluna não se acomoda. Cansa mais ainda, e a saída rotineira é subir nos saltos novamente.
Talvez a salvação para isso tudo esteja naqueles momentos em que tiram nossos pés cansados do chão, estando eles calçados ou não.
08.09.08
Quão Forte?
“Was mich nicht umbringt, macht mich stärker.”
E com relação às coisas que nos matam, sim, um pouco por dentro, o que Nietzsche teria a dizer?
06.10.09
Lento Divagar
E se eu fosse embora? Simplesmente fosse(,) evaporando devagar e como quem não quer nada, sumindo. Aonde eu iria parar? Eu iria parar? Eu que nunca paro. Eu iria seguir para um lugar desconhecido? Eu que às vezes não sei seguir e deixar pra trás. Mas acabo seguindo sem saber, mesmo. Já que é desconhecido não deveria ser seguido, mas eu vou como a Alice de Carroll, raramente seguindo os bons conselhos que dou a mim mesma. Sempre me perco nesses pensamentos sem fio nem rumo que começam de lugar nenhum e nunca chegam a terminar.
.01.06
Qualquer Título Qualquer
Tô triste não (,) senhor. Isso é ruga de mágoa antiga, essa “minha carinha”, que nem cê diz. Sei nem dizer do que é… Dessas coisas que ficam amolando a gente por dentro. Num sei mesmo. Até já me acostumei e nem noto quando fico com essa cara de bicho acossado que me dizem de vez em quando.
O senhor me diz que uma menina tão nova não tem nem como ter tanta mágoa pra guardar. Mas o senhor também sabe que tem quem sofra desde cedo. Nem me venha com aquela conversa de “sofre quem passa fome, frio, não tem onde morar…”. Cada um com seu cada qual e não é porque fulano sofre de desnutrição que eu, ou até mesmo o senhor, que a gente não possa sofrer só por se sentir um pouco só de vez em quando, ou qualquer outra coisa qualquer. E daí que o filho dela morreu de bala perdida? Se ela fosse rica, chorava porque acabou o caviar. Mesmo que se importasse com as outras pessoas, com o menino da bala perdida… – que, nesse caso não seria filho dela, é claro – Mesmo assim ela ficaria triste por nada de vez em quando. É tudo gente.
Sabe o que eu acho? Que o ser humano é um tanto triste de nascença. Tem uns que nem notam, porque também são tapados de nascença, coitados. E aquela gente sofrida de quem eu já falei, não nota quando tá triste só pra exercer o direito da tristeza porque sempre tem um motivo claro e atual pra abaixar a cabeça.
Eu agradeço, sim (,) senhor, por não ter motivos assim. Mas enquanto eu tiver vontade, nem que não seja por nada, eu vou continuar chorando sem culpa. Porque ninguém pode reclamar de eu ser uma criatura errada se nasci e fui criada num mundo que de certo não tem muito. “Errada” que eu digo é assim meio… É que eu não sei dizer. Eu vejo as coisas de um jeito diferente.
27.04.07
O Armário
Quando ele entrou no quarto, as roupas já estavam quase todas jogadas no chão. Por um momento, pensou que ela estivesse arrumando as malas dele e fosse mandá-lo embora e a inexistência de motivos não importava. Pior, ela poderia estar arrumando as malas para ir embora.
- Meu bem?
Nenhuma resposta. Ela continuava a atirar roupas e mais roupas no chão e mal tinha onde pisar. Ele também já não sabia mais onde pisar. E perguntou com cuidado:
- O que você tá fazendo?
- Nada.
Ele olhou ao redor, perplexo. Como é que jogar tudo para cima poderia ser nada?
- Nada?
- É, nada.
-… Nada.
- Só arrumando o armário.
- Ah.
Ele continuou a observar os movimentos vigorosos dela; quase acompanhavam o ritmo da música intensa que só agora ele havia notado. Depois do arrastar de alguns segundos, ele atreveu-se:
- Mas…
- O quê?
- Ela falou tão bruscamente, parecendo assustada, que toda a cena parou. Só havia os batimentos cardíacos e uma camiseta parada no ar.
- O quê? – Repetiu ela.
- Nada.
- Eu só tenho que jogar umas coisas fora e…
- O quê?
- Nada.
- O que você disse?
- Não disse nada.
- Disse sim, eu ouvi.
- Se ouviu, por que pergunta?
- Eu ouvi, mas não entendi.
- Ouviu como, se eu não disse nada?
Ela suspirou profundo, jogou uma calça comprida por sobre o ombro e resmungou novamente:
- Eu só tenho que arrumar umas coisas, jogar fora outras…
- O que foi?!
- EU SÓ TENHO QUE JOGAR UMAS COISAS FORA!
E ela caiu de joelhos no meio da pilha de roupas, cobrindo com as mãos os soluços molhados. E ele ficou ali parado, sem saber o que fazer, com uma saia debaixo do sapato esquerdo e sem entender absolutamente nada.
31.10.07
De Pano
Zinha chegou pisando tão duro que parecia prensar cada vez mais o barro já batido do chão do quintal. A mãe varria, paciente, sabendo que a menina de cara amarrada só esperava que alguém a perguntasse o que havia acontecido. A poeira subia insistente enquanto as folhas secas eram arrastadas para um canto da cerca farpada. Zinha, com mais farpas que o arame, perdeu os estribilhos e disparou, sem esperar perguntas:
- O Tião pegô minha buneca.
- Apois pegue de volta que depois brigo com ele.
- Num podo.
- É “posso”. E num pode por causa de quê?
- Ele jogô ela no poço e a sinhora disse pra nóis num entrar lá.
- Mais que minino impussível!
Quando uma mãe chama o filho pelo nome é porque alguma encrenca vem de lá. O moleque estremeceu debaixo das folhas do pé de acerola ao ouvir o brado “Sebastião” ecoar pelos cômodos da casa. Aprontou uma expressão de inocência e correu a atender o chamado de Dona Eulália.
- Sim, sinhora?
- Cadê a buneca de Zinha?
- Sei dizer não, sinhora.
- Mais mintir cê sabe, né, seu caba safado? Eu já sei que aquela porquêra tá no fundo do poço!
Zinha abriu o berreiro:
- Num é porquêra!
Dona Eulália agarrou o menino pelo colarinho e o levou até a beira do poço, com Zinha agarrada na barra de sua saia. O poço, que não era muito fundo, estava com pouca água devido à falta de chuva, e uma escada de madeira despontava na abertura circular.
- Agora desce e vai buscar a buneca.
- Mais a sinhora disse que é pirigoso.
- Mais eu tô aqui pra olhar.
- Mais essa escada tá capenga.
- Deixe de lorota que eu sei que cê desce aí pra traquinar quando eu num tô olhando!
O menino desceu, brincou um pouco na água e logo que encontrou a boneca subiu sem dificuldade sob o sorriso lacrimoso de Zinha. Quando pulou a mureta cimentada, Tonho, o irmão mais velho, veio e pôs um doce na mão de Tião. A mãe, desconfiada, perguntou:
- Que é que cê deu pra ele?
- Uma mariola.
- Por conta de quê?
- É que eu apostei um doce como ele num conseguia brincar no poço bem debaixo das vista da sinhora.
Tonho saiu correndo às gargalhadas e Tião aprendeu que surra de boneca de pano molhada é pior do que de chinelo.
05.05.06
Descartável
Adorava café com muito açúcar, como aquele. Mas só quando já havia bebido mais da metade do conteúdo do copo é que descobriu que não estava com vontade de tomar café. A pia do banheiro muito branca; Cecília resolveu derramar o resto do líquido diretamente no centro do ralo e ainda assim abriu a torneira depois.
Então se olhou no espelho, por acaso. E se viu tão simétrica que se assustou. Não se parecia nem um pouco com aquela moça com muito calor pela viagem de ônibus, com muito frio por causa do ar condicionado, com a dor de cabeça que a tela do computador provocava. E andava tão ora triste ora irritadiça ultimamente. Deveria estar completamente descabelada, com olheiras imensas. Mas não.
Ficou se olhando por um tempo, olhar vidrado; como quando ouvia uma música que a fazia pensar demais. Daí a música acabava e ela ficava mirando os pés, o chiado dos fones de ouvido como o barulho de seu cérebro trabalhando com sobrecarga de informação. Às vezes parecia até que não mandava em si mesma. Ouvia a própria voz ecoando no crânio: “olhe para outro lugar”, mas a vista continuava fora de foco…
O telefone tocou; Cecília deu uma sacudidela na cabeça e piscou rapidamente, repetidas vezes. Encarou o aparelho como se nunca houvesse antes visto algo como aquilo. O nome dele acendia e apagava no visor. Ela respirava rápido e parecia que a qualquer momento poderia explodir de ansiedade, porque sabia que ia ouvi-lo dizer que não agüentava mais, saudades, que talvez até chegasse mais cedo porque ela era a mais…
- Alô!?
Cecília encarou o espelho outra vez, já não prestava mais atenção à voz cautelosa que parecia medir e pedir desculpas a cada mínima palavra, do outro lado da linha. Baixou os olhos excessivamente brilhantes e encarou os sapatos, pensando como era estranho… Até assim, com esse ar aquoso e sem querer, estava bem bonita hoje. O transe, os barulhos de maquinaria pesada dentro de sua cabeça. Murmurou um “hmrum” trêmulo de compreensão, muito baixinho mesmo. Admira como ele ouviu, tão reprimido que foi aquele “hmrum”, seguido de um “tchau”, tão pequeno quanto. Desligou e bateu o telefone na mesa, com um pouco de força desmedida.
Sentou-se automaticamente na cadeira mais próxima, puxou o açucareiro. Várias colheradas. Ficou olhando o aparelho quieto enquanto a colher circulava o líquido escuro e quente. Só quando já havia bebido mais da metade do conteúdo do copo é que se lembrou que não estava com vontade de tomar café, muito menos de atender ao telefone, não importando quando ele viesse a tocar.
18.12.06
Moléstia
Olhou-se no espelho e viu que tudo o que sentia por dentro estava ali refletido. Não comia direito, não dormia direito e aquela dor excruciante no peito… Estava tudo ali nela, nos cabelos desalinhados, nas olheiras, nas roupas amarrotadas. Aqueles olhos aquosos.
Sentia-se em pedaços e não entendia como tudo aquilo havia ocorrido por tão pouco. Não tinha forças para mais nada, por vezes perdia o ar. Estava perdida dentro de sua própria casa, se sentia desamparada e com aquela necessidade desesperada de alguém que cuidasse dela e lhe afagasse os cabelos.
Se era uma besteira, por que a torturava tanto? Por que ficava ali, deitada, esperando que tudo se resolvesse magicamente sem que ela tomasse uma atitude? Sabia que não iria simplesmente passar, então desistiu. Suava frio. Rendeu-se. Arrastou-se até o telefone, discou o celular dele e falou com voz fraca:
- Desculpe perturbar sua folga, doutor, achei que fosse só uma gripe, mas não me agüento em pé. Foi só um banho de chuva… Pode ser pneumonia?
16.07.09
Flambant Neuf!
Também conhecido como “brand new”, ou melhor ainda, “zero bala”, damos boas vindas ao Caderninho!
Nunca consegui escrever em um diário, manter a frequência dos meus registros de sonhos ou organizar uma agenda de compromissos. Todos acabam virando cadernos de desenhos, rabiscos, bobagens… Vários ninhos para chocar minhas idéias.
E nenhum jeito melhor de organizar as coisas do que um caderno novo. :)
